ABDICAÇÃO E COMPROMETIMENTO


ABDICAÇÃO E COMPROMETIMENTO


Quem observa um Sensei, não mensura que chegar àquela posição lhe custou muito. Foi necessário conciliar vida pessoal, amigos e estudo aos exaustivos treinos, durante 20, 30, 40 anos. Custou-lhe abdicar das brincadeiras da infância, das noitadas, festinhas e abusos da adolescência, além de, muitas vezes, perder os primeiros passinhos dos filhos, acompanhamento de uma cirurgia dos pais, sessão de fotos de família para formatura dos irmãos, já na vida adulta.

Um Sensei não nasce ao atingir a faixa preta. Ele se forma sobrevivendo aos cansaços, vencendo as guerras interiores, restaurando os sonhos que se perderam no caminho, reconquistando o vigor pela vida, percebendo o milagre da mudança na conduta dos seres humanos que chegam até ele. Transformar e sensibilizar pessoas requer paciência, cuidado, carinho e, especialmente, ter sua própria história e atitudes como exemplo para aqueles com quem convive.

Para ser um Sensei, é necessário mais que qualidade, é preciso esforço e muita coragem para continuar. Pesa-lhe por toda a vida o comprometimento com as técnicas, com os alunos e suas famílias, com suas aulas e com a necessidade de manter sua saúde íntegra. Exatamente, ele nunca se dá ao direito de se abater com doenças, dores ou indisposição. Estará sempre lá, com suas aulas minuciosamente planejadas para cada faixa etária, pensando nas individualidades de cada aluno, tendo eles dificuldades técnicas ou psicológicas. O Sensei observa e conhece as “lutas” de cada um.

O problema em questão é que alguns desses alunos percebem e valorizam esse comprometimento, essa vida abdicada em seu benefício. Estes, permanecem ao lado desse ser humano formidável e se mantêm fiéis aos seus princípios de esforço, fidelidade, respeito e não-violência. Mesmo em tempos difíceis se mostram disponíveis e comprometidos com aquele que abdica de seu lazer, do seu conforto e do seu descanso para estar sempre à sua espera.

Histórias de muitas dificuldades nesse meio são encontradas todos os dias. Problemas financeiros, falta de apoio, condições precárias e a distância da família são os principais motivos que fazem pessoas brilhantes desistirem de seu sonho de repassar, através de ensinamentos e atitudes, as técnicas e a essência do Karatê.

É necessário tomar consciência que, ao deixar de apoiar o seu Sensei, o karateka se mostra displicente com as experiências renunciadas por ele em prol do seu aprendizado. Mais que isso, posiciona-se negligente diante de sua própria prática, de seu próprio crescimento e história de vida.

Em um tempo de terrível recessão, como este de pandemia que acomete o Brasil, será que todos já refletiram sobre o que os dojôs estão fazendo para se manterem abertos? O que seu Sensei está fazendo para subsistir?

Ele não escolheu este ofício de ser professor, as circunstâncias da vida e o Karatê o escolheram. Portanto, mais uma vez, ele se dedica ao máximo: adquire o aferidor de temperatura mais moderno que existe, além de dezenas de litros de álcool gel e líquido para realizar, pessoalmente, a desinfecção de cada canto do dojô. Muita água sanitária, luvas e máscaras também passaram a fazer parte da sua rotina, tudo em prol da segurança de todos que ali estiverem.

Ministra o triplo de aulas para diminuir o número de alunos por sessão, passou a modificar seus planejamentos de aula, para manter distanciamento sem que os treinos percam em qualidade. Não obstante, após tantas aulas diárias, grava videoaulas e as compartilha em diversas plataformas. Ele mesmo demonstra cada movimento, apesar da dor nos ombros, cansaço e sobrecarga da rotina que o acometem. Também teve que modernizar seus equipamentos de gravação, para que seus alunos possam ver e ouvir tudo com clareza e riqueza de detalhes.

Incansável, no dia seguinte, o Sensei recebe o retorno dos alunos em gravações caseiras demonstrando sua prática a partir dos vídeos que assistiram. Aponta melhorias e os corrige.

E segue... em mais um dia, sendo segunda ou sábado, sempre atrelado ao seu compromisso de ser um EDUCADOR e um EXEMPLO a ser seguido.


OSS!

DANILO DE CESARO 

26 JUNHO 2020

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